Ultrafiord, uma corrida inesquecível!

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Foram três meses de preparação, numa rotina louca e frenética, entre trabalho, horas de treinos em trilhas, esteiras e estradas. Muitas horas sozinho e algumas vezes na companhia de bons amigos. Confesso que cheguei a pensar em trocar de prova, sair dos 114 km e ir para os 70 km, mas na última hora resolvi encarar, tinha certeza que estava preparado.

Depois de mais de 12 horas de viagem entre o Aeroporto Internacional Tom Jobim(Rio de Janeiro) e a rodoviária de Puerto Natales (Magalhâes-Chile), finalmente tive a oportunidade de conhecer o famoso clima do “Fim do Mundo”. Me assustei, as mudanças são repentinas, parece aquele seu amigo que muda de humor a cada 5 minutos. Sol, chuva, frio, ventos fortes e neve. Basta o vento patagônico soprar e tudo muda. Ano passado a organização do evento foi obrigada a cortar parte da prova por conta dessas mudanças repentinas. Por segurança, o trecho mais bonito foi evitado ( Paso Byron 1240m).

Aproveitei os dias antes da prova para trotar e soltar as pernas e, de quebra, me acostumar com o frio. De cara já deu para saber o porquê das luvas serem elementos obrigatórios. Caí na besteira de sair do hotel para um trote sem luvas. Alguns minutos e km’s depois, voltei com o que acredito ter sido o melhor pace da minha vida e com as mãos quase congeladas.

Na sexta-feira(07/04) acordei bem cedo, depois de uma noite de sono cheia de ansiedade, e fui para o local onde pegaríamos o ônibus para seguir para a largada. Madrugada bem fria, mas com céu estrelado, sem nuvens e sem garoa, era tudo o que precisávamos para o dia D. Depois de alguns minutos de estrada, pegamos um catamarã com destino à Hosteria Balmaceda (local da largada dos 100km). Barco cheio, corredores e turistas juntos em um passeio que durou quase 3 horas. Para mim uma eternidade, queria muito largar, começar a prova, caminhar e correr. As expectativas eram muitas, precisava começar logo. Finalmente às 11:30 (mais ou menos), com um céu azul e um sol maravilhoso, largamos.

Depois de margear um pedacinho do fiord Ultima Esperanza, entramos na trilha que nos levaria subindo por 10 km em trechos de bosque, vegetação rasteira com alguma neve. Logo no início já dava pra perceber que essa seria uma prova diferente. Após deixarmos o visual do glacial Balmaceda para trás, já começamos a avistar as montanhas e sentir as dificuldades de caminhar por uma área que é difícil imprimir velocidade. Não pela inclinação mas pelo tipo de terreno, trilhas curtas e muitas pedras soltas. Algumas horas depois, um rapel improvisado e um bastão entortado, chegamos à base do Paso Byron. Crampons (item obrigatório que se usa por cima do tênis para atravessar áreas de gelo) calçados, começamos a nossa subida, trecho pequeno, escorregadio e lento. Quem participou da palestra técnica já sabia o que fazer com relação às fendas (não eram poucas): observar a mudança de tons do branco para um azul forte, contornar quando necessário, evitar sair da trilha deixada pelos outros corredores, etc. Atravessamos a parte mais bonita e difícil da prova, por mim a corrida poderia acabar ali. Agora era descer mais um glacial (com direito a parada para beber água de degelo! ), passar por um PC (Posto de Controle Chacabuco 2) e correr para para aproveitar a luz do dia, já que a noite chegaria mais rápido no bosque.

Começava pra mim uma outra corrida: todo gelo e neve ficaram para trás, agora era hora de encarar quilômetros de bosque com muita lama e que às vezes engoliam as pernas até a cintura, passar por uma vegetação estranha, que hora parecia uma esponja e hora uma cama elástica (esqueci o nome da danada). Da subida do glacial até o primeiro PAS (Posto de Assistência El Salto) do outro lado da montanha foram algumas horas de caminhada e corrida solitária. Após uma parada rápida para comer e reabastecer reencontrei o companheiro Francisco, um argentino gente fina, que havia conhecido no início da corrida. Seguimos até a Estância Perales, batendo no meu Garmin 44 km de prova e pela organização 40 km. Dentro da minha estratégia a primeira parte da prova. Foram 13h e 30m da largada até a estância. Após um intervalo longo para trocar roupas, tênis, meias (que a essa hora já estavam encharcadas e cobertas de lama), abastecer a mochila e descansar um pouco, seguimos para os 70 km restantes.

Noite longa e cansativa, trecho de estrada de chão. Depois de uma breve parada para tentar amenizar o sono, sempre com a preocupação de não deixar o corpo esfriar ( na madrugada patagônica isso pode ser fatal), mais um encontro e mais um companheiro se juntou a nós, o curitibano Ítalo. Partimos os três para nosso objetivo. Por volta das 7 horas da manhã passamos pelo PAS Ruta Milodon, e alguns quilômetros a frente retornamos às trilhas, seguindo por um descampado e margeando a Laguna Sofia até o PAS do mesmo nome. Agora faltavam apenas dois postos e 29 km.

Mais bosques, pastos, infinitas cercas para pular, mais um PAS(Dorotéa) e finalmente o último posto, PAS Aeropuerto. Última anotação de chegada e saída do posto no passaporte da prova, agora só 7 km de asfalto nos separava da meta. Foram os 7 km mais duros da minha vida. Cansados, com tênis de trilha, pés destruídos, joelhos pedindo para parar, seguimos parecendo três crianças que a toda hora olhavam para frente e perguntavam: “Tá chegando?”

Pronto: 31 horas e 18 minutos após a largada, chegávamos ao pórtico em Puerto Natales, agora com a emoção de mais uma missão cumprida, com mais uma experiência a acrescentar ao currículo e o melhor de tudo, mais dois amigos conquistados ao longo dos 114 km de uma das mais difíceis provas do mundo, a Ultrafiord.

Uma prova dura e maravilhosa, que passa por lugares incríveis, mas que precisa ser feita com responsabilidade e segurança. Ter um bom preparo físico, estar com o psicológico preparado e seguir todas as dicas da organização, é a melhor forma de cruzar a linha de chegada com segurança.

Fica a lembrança de bons momentos e  a certeza que foi uma das mais duras e divertidas provas que já participei até hoje. Que venham outras iguais ou piores!

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MAPS

 

 

ULTR

 

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