Trail Running faz mal à saúde?

Por Helton de Sá

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Ainda se sabe pouco sobre atividades de Ultra endurance.

De forma bem direta, a resposta é: seguindo as recomendações de seu médico, treinador e nutricionista, não! Mas leia até o final para que você entenda o que está por de trás desse tema.
Muitos de vocês que acompanham o blog e o canal Ultramaniadecorrer são corredores de trilhas e montanhas, mas gostaria de pedir-lhes licença para deixar registrado a definição das Trail Running pelo principal órgão internacional que regula esse tipo de corrida o ITRA (Internationl Trail Running Association, 2018). Trail Running é um tipo de corrida a pé, percorrida em ambientes naturais como montanhas, desertos, sertões, florestas e geleiras. A rigor, os eventos de trailrunning acontecem em locais com o mínimo possível de pavimentação (não devem exceder mais de 20% do percurso) e que normalmente preveem distâncias superiores a 42,195 km –podem haver provas com distâncias menores. Esse tipo de corrida (superior a 42,195 km) é classificada com um tipo de competição de ultraendurance, também chamadas de ultramaratonas ou ultratrailrunning ou ainda provas de endurance extremo, já podem durar dias.
De acordo com o site especializado em corridas de montanha Adventuremag, no ano de 2014 foram realizados aproximadamente 95 eventos desse tipo no Brasil. Cerca de 34 mil corredores participaram dessas provas no ano de 2014 (Adventuremag, 2015). Para o ano de 2019 existem mais de 250 corridas desse tipo já registrados neste site. É natural que com o aumento no número de provas de trailrunning e de participantes, também sejam produzidos mais ciência entorno das modificações fisiológicas, imunológicas, biomecânicas, fatores psicológicos e estratégias de provas associadas às competições de muito longa distância.
E o que a ciência já sabe sobre esse tipo de corrida? Até o presente momento, diferentemente do que acontece para os exercícios de endurance de intensidade moderada – sobre o quais são bem descritos os efeitos positivos no humor, no sono, na atividade do sistema imunológico, na integridade do tecido muscular esquelético, ao combate à obesidade e diversas doenças crônico-degenerativas – ainda se sabe pouco sobre os efeitos dos exercícios de ultraendurance para saúde de seus praticantes.
Por outro lado, existem diversos relatos na literatura apontando que exercícios físicos extenuantes podem gerar um quadro de imunossupressão transitória, também conhecido como “janela aberta” após o exercício. Ou seja, é possível que após uma prova (ou treinos) muito longa e muito desgastante uma pessoa tenha maiores chances de ser acometida por doenças causadas por vírus e/ou bactérias. Trocando em miúdos, a “abertura da janela imunológica” é caracterizada pelo aumento das chances de instalação de infecções e inflamação, principalmente no trato respiratório superior – como gripes e resfriados.
Como vemos no gráfico abaixo pessoas sedentárias tem mais chances de serem acometidas por doenças na via aérea superior, mas pessoas que treinam moderadamente tendem a ter menos doenças desse tipo. Mas pessoas que treinam muito intenso várias vezes na semana ou após uma ultramaratona, os riscos são muito similares a de pessoas sedentárias.

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Mas o que pode causar esse efeito prejudicial ao sistema imune pelas utrail running? Em linhas gerais, o aumento rápido e prolongado de adrenalina, noradrenalina e cortisol (hormônios relacionados ao estresse), alteração da microbiota do trato gastrointestinal (conjunto dos microrganismos que habitam um as mucosas de todo aparelho digestivo e respiratório) e as microlesões causadas pela própria corrida tendem a inibir a resposta imunológica. Essas ações promovem alteração o perfil inflamatório e dependendo da magnitude podem prejudicar o processo de recuperação fisiológica após uma competição de ultratrailrunning.
Mas fique tranquilo, se tiver o tempo adequado de recuperação após uma competição, essa imunossupressão é transitória. Além disso, também é possível minimizar os efeitos durante os treinos e competições. Além de dormir bem (como será abordado e postagens futuras), se alimentar adequadamente é essencial. Os carboidratos e aminoácidos, por exemplo, são ótimos combustíveis para bactérias que abitam nossa microbiota intestinal, além disso parece que as fibras alimentares também possuem papel importante na atividade do sistema imune. E mais atualmente é crescente o corpo de evidências científicas de que a suplementação de prebióticos, probióticos e de simbióticos podem minimizar os efeitos negativos das corridas de longas distâncias ao sistema imunológico.
Para ajustar e melhorar seu desempenho é essencial que os profissionais de Educação Física e Nutricionistas estejam alinhados para planejar as melhores estratégias, tanto durante o período de treinamento quanto nas competições.

 

Fontes:
ADVENTUREMAG. Infográfico e curiosidades das provas de Trail Running no Brasil 2015. Disponível em: < https://www.adventuremag.com.br/trailrun/2015/infografico-e-curiosidades-das-provas-de-trail-running-no-brasil-em-2014-adventuremag/ >.
GIMENEZ, P. et al. Changes in the energy cost of running during a 24-h treadmill exercise. Med Sci Sports Exerc, Disponível em: < http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23524515 >.
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lattes2Professor da Universidade Brasil no curso de Educação Física, treinador e consultor de atletas de corrida. Mestre e Doutorando em Ciências pela Universidade Federal de São Paulo, Especialista em Psicobiologia também pela Universidade Federal de São Paulo. Graduado em Educação Física pelo Centro Universitário de Volta Redonda – UniFOA. Responsável pelas avaliações físicas e fisiológicas no Centro de Estudos em Psicobiologia e Exercício – CEPE – prestando serviços para os Comitês Olímpico e Paralímpico Brasileiro. Pesquisador do CEPE entre 2009 e 2016 e do Laboratório de Erros Inatos do Metabolismo (LEIM).

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